Silvio Alvarez
 




Perdido ao telefone



Sou fanático por um telefone, confesso. É uma pena que o preço da chamada seja tão alto. Passei a ser mais comedido ao mágico aparelinho quando precisei morar sozinho comigo mesmo pela primeira vez. Lógico, uai, a conta passou a ser toda minha.

Digo de telefone fixo porque de conta de celular nem é bom falar, dele e nele. Desde o início da celularização da vida, procuro optar sempre pelo planos pré-pagos, e, veja bem, nunca coloco crédito. Não, não sou avarento, sou compulsivo, é bem diferente. Demorou, mas finalmente aprendi e adquiri a paciência necessária para a comunicação padrão da atualidade, via e-mail.

Carrego uma frustração telefônica que maltrata as entranhas do meu ser desde a meninice. Não posso passar trote para os amigos. Não consigo enganá-los de jeito maneira, ué. Pois é, sou gago. Antes do advento do identificador de chamada, bem que tentei uma vez ou outra, mas já no alô era desmascarado impiedosamente.

Também gaguejo fora dele, mas, ao telefone, o meu empacamento vocal costuma ser mais acentuado. Para conseguir conversar sem maiores transtornos, sou obrigado a impostar a voz. Impostada digamos que ela fica bastante parecida com a de um Cid Moreira desnutrido. Se bem que mesmo engrossando a dita cuja de vez em quando ainda tropico nas palavras. Travo principalmente nos vocábulos que começam com “p”, “d” e “t”. Este meu pequeno defeito remix sempre incomodou ao falar ao telefone fixo, imaginem, agora, com a celularização da sociedade. Não sei com vocês, mas no meu caso este trambolho móvel só toca quando estou com a maior galera em volta.
 O meu primeiro aparelho foi um
celular-tijolo, daqueles, que, se
arremessados na cabeça de alguém,
matam instantaneamente. Aqueles
que
não possuem nada assim de
primeira
necessidade que se espera
de um
telefone, como câmera digital,
luz de boate, sauna,
hidromassagem...

Certo dia, este meu pré-histórico
armamento comunicador começou
a
tocar dentro do ônibus lotado às
18h45
de uma sexta-feira, a fatídica
hora do
rush, bem no Centro de
São Paulo.
Tamanho o aperto no
busão
, não
conseguia sequer me
mexer, quanto
mais atender ao dito
cujo. E o
toque-perfil, então,
escolhido por esta
anta que vos
dirige os vocábulos, era o
discretíssimo Willian Tell,
a musiquinha da cavalaria.
 

      


            
                
                        

Visualizem a situação deste vosso amigo. Como não poderia carregá-lo na cintura, devido ao peso, pois acarretava dores nas costas, enfurnara o celular no buraco-negro que é a minha mala 007. Missão quase impossível. Nem mesmo o Tom Cruise com todo aquele cachê hollywoodiano daria conta do recado. Tive de empurrar uma meia dúzia de passageiros a fim de abrir a bagagem extensão do meu braço e resgatá-lo. Enquanto isso, a galera do coletivo acompanhava  o espetáculo com a maior atenção. Virou festa.

Quando finalmente atendi, o inconveniente interlocutor queria saber quem é que estava falando. Ora bolas. Que sujeito chato, ele que liga e ainda quer saber com quem estava falando. Pode? Um silêncio sepulcral tomou conta do ônibus como se todos os passageiros quisessem ouvir a conversa. Como a gagueira aumenta sob pressão popular, respondi ti-ti-ti-tubeantemente. 

Coco, coco, coco, com quem o que o senhor gostaria de falar?

Ouvi apenas um risinho cínico do outro lado e... O infeliz desligou na minha cara. A gargalhada foi geral. Quem não riu abriu um sorriso. Precisei descer, não tinha mais condições morais para permanecer no veículo e seguir viagem.
 
Entre o celular e o telefone público, fico com o orelhão, como é chamado
carinhosamente em minha metrópole.

Observar o estado de conservação dos orelhões é uma diversão à parte. Os moradores desta cidade ficaram tão íntimos e sociáveis uns com os outros que estão até colando etiquetas divulgando os números dos telefones de suas casas. Fantástico, né não? O único problema é que alguns divulgam também outros detalhes, íntimos demais...



Colagem: Silvio Alvarez

Silvio Alvarez é colunista, radialista e artista plástico de colagem.

www.perdidonametropole.com.br
silvioalvarez@uol.com.br