Written by Cléo Tassitani on Thursday, 24 November 2011 10:03
Em sua obra existe vida!
Negro de família humilde carioca, Sergio Cezar já passou maus bocados na vida. Filho de porteiro e empregada doméstica, ele começou a transformar sucata ainda moleque.
Com o tempo, desenvolveu uma técnica toda especial que hoje encanta muita gente. Sérgio revela poesia e brasilidade, além de originalidade e talento.
A matéria-prima de suas instalações e esculturas é o lixo. De entulhos e sucatas, ele é capaz de reconstruir artisticamente casinhas, sobrados, bares, cortiços, morros inteiros.
Suas obras ricas em detalhes contam histórias, revelam o que muitas vezes nossos olhos já não podem ver. As esculturas são vivas, iluminadas, com vozes.
Por meio de suas miniaturas, vemos um Brasil que não conhecemos. Suas maquetes respiram a poesia, a alegria e a simplicidade da essência brasileira.
Há uns 20 anos, ninguém iria comprar uma obra com matéria-prima que foi encontrada no lixo. Na realidade, o que eu procuro retratar é a alma das pessoas que vivem nos lugarem que eu crio. Não coloco personagem no meu trabalho. Mas eles existem. E o meu trabalho só está pronto quanto eu vejo quem está morando lá".
Há quase 30 anos, Sergio trata de questões como meio ambiente e inclusão social. Em 1998, criou a ONG Recuperar-te com o objetivo de desenvolver projetos de inclusão social. Lá, dá cursos de artesanato para crianças e jovens de comunidades carentes, além de desenvolver projetos para a construção de autonomia dos jovens, auto-estima, expressão e, principalmente, de educação.
O trabalho realizado pelo artista Sergio Cezar está contribuindo para a memória coletiva de gerações. Uma arte fácil de ser compreendida e que se tornará um referencial e o testemunho de uma época.
Favela Complexo de Fátima na abertura da novela "Duas Caras"
Em 2007, Sergio Cezar criou a “Favela Complexo de Fátima” de 64 m² para a abertura da novela Duas Caras, exibida pela Rede Globo. Na maquete, composta por um amontoado de barracos e vielas muito próximas aos da vida real, o designer Hans Donner fez interferências com computação gráfica – e o resultado foi a comunidade pobre crescendo em direção a dois prédios high tech.
A obra de Sergio Cezar reproduzia quase à imagem e semelhança da comunidade de Rio das Pedras, uma das favelas mais “prósperas” do Rio de Janeiro.
Em 2009, a obra integrou 10ª Bienal de Artes de Havana, que reuniu trabalhos de 200 artistas de 40 países na capital de Cuba.
Parte da obra "Favela Complexo de Fátima"
Com Hans Donner, gravação da abertura de "Duas Caras"
O amigo Olivier Anquier
Olivier Anquier descobriu o trabalho de Sérgio há mais de 10 anos em uma revista de bordo em uma de suas viagens. Encantado com a maneira diferente que Sergio aborda o Rio de Janeiro, Olivier pediu para que a sua produção achasse o artista. E eles são amigos desde então!
''Sergio Cezar é conhecido como o arquiteto do papelão e é absolutamente perfeito em suas proporções. Uma de minhas peças preferidas é o "Complexo de São Jorge", que recebi de presente de Sergio e mantenho no canto da sala de jantar'', diz Olivier Anquier, que reside na cobertura de um prédio antigo no bairro da República, em São Paulo.
No apartamento de Olivier, a obra "Complexo de São Jorge
Na gravação do programa "Diário do Olivier", na GNT
Documentário “O Gigante do Papelão”
"O Gigante do Papelão" é um documentário que conta a história da arte do artista plástico Sergio Cezar e seu poder de transformação. Sergio, também conhecido como o “Arquiteto do Papelão”, usa materiais descartados para retratar casas, favelas e cidades inteiras. Seu trabalho propõe uma verdadeira reciclagem no olhar.
Dirigido por Bárbara Tavares, o filme já circulou em vários festivais de cinema no mundo e trouxe para casa prêmios de melhor filme eleito pelo público em festivais em Buenos Aires e Montevidéu.
“Reciclar o olhar é mudar o foco ruim da adversidade para o foco feliz da consciência do ser mais humano possível. Eu dou início àquilo que parecia ser o final”, diz Sergio Cezar.