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Biblioteca boa é biblioteca vazia! PDF Print E-mail
Cultura | Educação
Written by Prof. William Sanches on Thursday, 01 October 2009 11:05   

 





Biblioteca_2
Talidomida Mental

Uma boa biblioteca é aquela que está constantemente vazia. Vazia porque os livros estão emprestados, circulando, passeando e sendo lidos pelas pessoas. Uma boa biblioteca é aquela que também é sempre visitada por ser um local de eventos, exposições, estudos, lançamento de livros e, sem dúvida, de muita leitura.

Acontece que, atualmente, é muito mais fácil ligar a TV do que abrir um livro para ler. Enquanto os franceses lêem cerca de sete livros por ano, no Brasil a média é de apenas um livro e meio. Infelizmente o hábito da leitura está presente em apenas uma minoria das pessoas e, conseqüentemente, a freqüência em bibliotecas também...

Na segunda metade do século XX, um laboratório farmacêutico alemão – Grünenthal – inventou um remédio fantástico para evitar enjôo que acomete algumas mulheres no início de sua gravidez. O remédio cumpriu o que tinha prometido: as grávidas não sentiram enjôo, mas passados alguns meses, descobriu-se algo terrível: as crianças começaram a nascer sem braços, sem pernas ou sem olhos. Esse remédio chama-se Talidomida e, até hoje, existem hospitais que abrigam as vítimas da Talidomida. O que parecia um remédio sensacional transformou-se no pior dos pesadelos.

Nessa mesma época começou a se proliferar em todas as casas o maior meio de comunicação em massas: a televisão.

A TV foi criada para divertir, entreter, educar, informar, distrair... A idéia é ótima, mas como na história do remédio, a TV também teve seus efeitos colaterais, pois já foram criadas pela TV, desde sua invenção, pelo menos três gerações com grandes porcentagens de analfabetos funcionais, ou seja, alguém que consegue transformar letras em sons, mas não em idéias. São pessoas que cresceram sem nenhum, ou quase nenhum contato com a leitura. Até aprenderam a ler, mas não desenvolvem essa prática.

A questão é comportamental e simplificando com uma expressão muito conhecida, estamos vivendo uma “bola de neve”. Falta cultura, falta leitura, falta conhecimento. Claro, de maneira alguma todos os problemas vividos hoje pela falta de cultura das pessoas podem ser resumidos apenas à TV. É apenas uma abordagem simples, mas necessária de se pensar. Talvez, a TV seja a “Talidomida Mental” da atualidade, porque estamos colhendo os “frutos” de uma época em que foram plantados sem nenhuma “adubação”, ou seja, sem nenhum preparo e qualidade. Resultado disso é essa grande massa que mal consegue interpretar um texto, escrever ou produzir redações.

Em muitas famílias a TV substitui uma boa conversar e uma boa leitura que também são formas divertidas, prazerosas e fantásticas de lazer. Essa leitura não precisa ser de textos técnicos e maçantes. A leitura pode ser iniciada com algo prazeroso, que realmente dê prazer ao leitor.

Muitos profissionais da área da educação também não possuem o hábito da leitura. Parece ironia, mas não é! É comum encontrarmos professores de todas as áreas falando que detestam ler. O pior é que transmitem esse sentimento aos alunos. A escola deve proporcionar um ambiente à leitura, pode ser o mais simples possível, mas deve existir. Como deve existir também um momento dedicado a essa prática, sempre com histórias que despertem a curiosidade das crianças, pois dessa forma ela buscará novas aventuras, personagens e sonhos. Através da leitura educam seus olhos para a beleza da vida e da arte.

Sou apaixonado pela história do “Menino que Carregava Água na Peneira”, de Manoel de Barros, e que gostava mais do vazio do que do cheio, porque os vazios eram maiores e até infinitos...

“ ... Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento
e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso...

A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira
Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando ponto final na frase.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios com as suas peraltagens
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos”...

Quando a biblioteca está vazia é porque seus livros estão enchendo outros lugares de informações, de criatividade, de fantasia e de sonhos. Devemos ser como o menino que carregava água na peneira e que fazia do vazio o infinito e de sua criatividade a maior forma de sonhar. Fazia da leitura e da escrita suas maiores ferramentas e motivações de vida. Podemos também ser fazedores de “meninos que carregam água na peneira” incentivando e valorizando a leitura.

Quando as pessoas ficam ricas interiormente estão propícias a sentir mais alegria e, sentindo mais alegria, também podem dar mais alegria e essa é a verdadeira razão pela qual vivemos.



Fotos: banco de imagem


William Sanches
Prof. William Sanches
www.williamsanches.com.br

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