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Olivier Anquier PDF Print E-mail
Celebridades | Entrevistas
Written by Cléo Tassitani on Thursday, 03 July 2008 03:23   

 

 

Pão à francesa!

 

O que significa “ouvir o pão cantar” que você comenta no seu livro, Padaria em Casa?
Quando você tira o pão do forno, acontece a mudança de temperatura entre o ambiente e o forno. A dilatação da casca faz com que ela se quebre. Essa quebradura da casca provoca uns estalinhos e é como se fosse uma música, que eu chamo de “o canto do pão”.


Mas isso não é uma coisa que normalmente a gente escuta. Você que normalmente ouve o pão cantar...

Em geral, é o padeiro quem tira o pão do forno – é um privilégio do padeiro de perceber essa música, de ter essa interpretação poética. Definitivamente, quando você está comprando o pão na padaria, ele já cantou há muito tempo (gargalhadas)...


Seu livro foi publicado pra ensinar suas técnicas pras donas de casa. Você tentou passar “essa música” pra elas?

Eu dei algumas dicas e informações pra quem pretende fazer pão em casa prestar atenção nisso – na verdade, é uma poesia. A pessoa acompanha a fabricação do pão com as mãos, é uma continuação desse movimento bonito, que é fazer o pão – em casa.


Quando o seu livro saiu, fiz uma entrevista com você e foi um absurdo o que ele vendeu. Ele alcançou o sucesso que você esperava ou superou?

Foi inferior aquilo que eu queria não por causa do insucesso dele (porque, na época, ele teve o seu sucesso – vendemos 152.000 exemplares), mas não alcançou o que eu esperava independente da minha vontade. Foi um problema básico de distribuição. Muitos brasileiros gostariam de ter tido acesso a esse livro e, infelizmente, ficaram frustrados porque não existia mais pra comprar, enfim, foi uma certa incompetência nesse sentido. Se eu vendi essa quantidade de livros, poderíamos ter até triplicado esse número.


Você não gosta de ser chamado de chef.

Não, porque eu não sou... (risos)...

Mas você já teve restaurantes...
Sim, eu já tive... Mas nem por isso eu me intitulo como chef. Vou te dizer porque. Chef é uma profissão que você precisa estudar pra isso, em faculdades ou escola
Olivier Anquier2s de hotelaria, enfim, escolas profissionais. Não estou falando de estágio no Cordon Bleu, não... (nota da redação: Le Cordon Bleu é uma rede internacional de manejo de hospitalidade e de escolas de culinária que ensinam a cozinha francesa). Estou falando de escolas em que a pessoa entra com 14 ou 15 anos de idade e que vão dirigir o caminho dessa pessoa, que vai se formar nessa profissão. Você sai dessas escolas com 18, 20 anos (depois de seis anos de estudo) com a possibilidade de ser chamado de chef – porque você estudou aquilo profundamente. Quem é chef? Você tem o Laureant Suaudeau, é um chef, o Emmanuel Bassoleil, é um chef... Um que eu coloco como chef e que não seguiu esse caminho (e que não podemos desmerecer porque ele tem o lado autodidata) é o Alex Atala, que também é um chef e que seguiu um percurso totalmente diferente.


Tem de ter formação...

É escola mesmo. O exemplo do Atala é contrário àquilo o que eu estou falando – ele é uma exceção. Não podemos pegar uma exceção pra generalizar. Por que eu não quero ser chamado de chef? Porque eu não sou chef e por respeito a quem é e a quem estudou pra isso. E me recuso a aceitar essa etiqueta – que não me pertence. Mas eu sou um bom cozinheiro. Ponto.


E você gosta de cozinhar? Digo cozinhar no dia-a-dia, fazer comida em casa?

Adoro – faço todo dia. Eu não vou a restaurantes mesmo...


Você não freqüenta restaurantes?

Raramente...


Por que?

Porque é melhor comer em casa (risos)...


Você acha?

Prefiro estar na minha casa, não tenho essa carência, essa necessidade, vou de vez em quando, claro. Mas raramente.


Você vem de uma família tradicional de padeiros, a sua mãe (Myriam) tem a boulangerie Victoria, em Sidney, na Austrália... Sua profissão é dom, é hereditariedade?

Minha mãe tem padaria – quem faz pão no Brasil é padeiro, não isso?


Você herdou a profissão da sua família? Eu li que você demorou um tempo, uns 10 anos, pra se descobrir. Você seguiu um outro caminho. E você tem toda uma história no Brasil primeiro, você foi modelo, só depois começou com a sua padaria aqui no país...

Exato... Por que? Porque eu acho que nós descobrimos o que vai ser a nossa vida à medida que ela anda, não é? Nada é definitivo. Você não acorda num dia, dizendo: “Ah!... Eu sou aquilo, eu me descobri”. Eu acho que é um longo caminho – adquirindo experiências e conhecimentos, passando por felicidades e infelicidades que, pouco a pouco, vão te levar a atingir parte daquilo que correspondem a você. Como você bem falou, demorei muitos anos pra descobrir que, de repente, uma coisa que estava dentro de mim, adormecida, que é o ramo da panificação e da cozinha, poderia ser a minha realidade de vida hoje. E a televisão é a mesma coisa. Eu não acordei e disse: “Ah! Sou um apresentador de TV”. Não, ao longo dessas experiências foram se criando oportunidades que me levaram a perceber que era um caminho. Consegui conciliar a panificação e a TV perfeitamente, sem criar nenhuma asperidade. Isso é coerência. Por mais que sejam dois mundos diferentes, um e outro têm coerência – o pão e a televisão. Existe sinceridade na pessoa que consegue administrar esses dois segmentos. Porque é sincero, é verdadeiro.

 

No seu livro você é completamente transparente.
Eu acho que sou transparente em tudo o que eu faço. É uma das chaves do reconhecimento que eu adquiri. Sou sincero, não é? Então, qualquer coisa que eu esteja fazendo, sou eu.


Tem até toques de segredo nas receitas desse livro, da sua profissão. Isso é importante, principalmente para os profissionais iniciantes?

Se a humanidade está onde ela está é graças aos seus ancestrais, que tiveram a consciência e generosidade (principalmente a consciência) de que, pra uma sociedade
Olivier Anquier3crescer, é preciso “dar” o conhecimento. Hoje em dia, estamos num mundo muito egoísta, muito individualista – é um mundo em decadência. Podemos perceber que, atitudes como a minha, de “dar”, é uma raridade. Tanto é que você acaba percebendo, Cléo, você fica até surpresa: “Olivier, você está ‘dando’ seus segredos”... Estou fazendo simplesmente o que meus ancestrais fizeram desde que o homem é homem, que é a postura certa para o crescimento da humanidade – o meu conhecimento precisa ser repassado pros outros. Essa é a minha obrigação, pela minha passagem na terra, só isso...


Quando você teve a idéia de montar a sua padaria nos moldes que você queria, com a capacitação profissional que é complicada (na época, não existia mão-de-obra qualificada), falaram que você era maluco. Como você avalia o seu trabalho hoje? Depois de tanto tempo, você já está solidificado no mercado... E essas pessoas que te achavam louco naquela época?

Naquela época as pessoas me achavam louco em parte por aquilo o que eu te falei – de uma realidade de comportamento da sociedade até hoje, onde não se acredita nas pessoas e não se acredita na evolução, na generosidade e no respeito em relação ao outro. O que se relaciona à mão-de-obra que não era qualificada, hoje em dia eu tenho a feliz realidade e constatação de saber que as pessoas trabalham comigo há 15 anos. São pessoas simples... Eram pedreiros e, de um dia pro outro, passaram do saco de cimento pro saco de farinha. Atualmente, são pessoas de altíssima responsabilidade e sentem orgulho do trabalho bem feito. O Brasil está repleto de pessoas que estão esperando “nascer” e virar talento. É uma constatação que eu tive dentro da minha humilde área, da panificação.


Hoje, já existe formação pra padeiro?

Existe pra padeiro, pra marceneiro, existe pra todas essas profissões indispensáveis. O advogado, às vezes, a gente pode dispensar. Um economista, a gente pode dispensar. Ninguém pode dispensar um pedreiro, ninguém pode dispensar um marceneiro, ninguém pode dispensar um padeiro. É a essência da vida. É o teto, é a comida, é o que dá continuidade à nossa civilização. O advogado não serve pra nada, a não ser dentro da nossa realidade da sociedade atual. Hoje, estão sendo valorizadas as profissões acadêmicas que (acho) são muito menos importantes (ao contrário do que se pensa) do que as profissões onde “é a mão que manda”...


Por que você saiu de casa, aos 16 anos, e adotou o Brasil como seu segundo país?

Eu adotei o Brasil por acaso, vindo pra cá pra em 1979 pra passar férias, acabei gostando e me encontrei morando aqui. Peguei minha independência – eu vivia uma realidade familiar que me levou a decidir que era melhor eu me virar sozinho do que continuar dentro daquilo, que não estava me satisfazendo.


As pessoas acreditam que você tem uma história com o Brasil a partir do seu primeiro casamento (nota da redação: Olivier foi casado durante 16 anos com a atriz Débora Bloch). E não tem nada disso – sua história vem bem antes do seu primeiro casamento.

Exatamente. Meu casamento foi em 1990, mais ou menos.


Mas as pessoas confundem, Olivier.

Isso é normal. As pessoas não têm obrigação de conhecer a minha vida. E eu não faço questão que elas conheçam a minha vida também (risos)... O importante é que o resultado, independente do momento que essas pessoas que você está comentando acreditam que eu comecei a minha “existência” aqui no Brasil, já se passaram quase 18 anos – o que não é pouco também (eu digo em relação à data do meu casamento). Então, o resultado é que, hoje, eu faço parte da “história do Brasil” pelo que eu fiz e não pelo meu casamento.


As pessoas já te procuram pela sua profissão, nada a ver com quem você foi casado.

E nunca foi assim. Tanto é que eu sempre fiz o meu caminho, independente da relação do meu casamento – foi um casamento de amor. O que não tem nada a ver com a minha profissão. Tanto é que eu não virei ator, virei padeiro. Pão – podemos dizer que é a coisa mais “ordinária”, né? (risos)... Não entrei na simplicidade de, de repente, me apoiar na profissão da espo
sa que eu tinha escolhido – não, fiz o meu caminho. Se depois eu entrei na televisão, foi por um caminho completamente diferente. Tanto é que eu estou na concorrência. Tudo é devido ao meu trabalho e à minha integridade.


Você é uma pessoa bem-sucedida na sua profissão, você se deu super bem, tem muita concorrência...
Eu trabalhei muit
o...

Eu sei disso, sou testemunha – pelo menos nos últimos 10 anos eu acompanhei tudo. Olivier, a pessoa que quer começar hoje, que quer seguir o caminho como o seu, o que ela precisa fazer? Como é o começo? É muito complicado?
A primeira coisa é acreditar em si mesmo – e ponto. Esse é o ponto de partida. A partir daí, o mundo
Olivier Anquier4 está pra você, não é? A partir do momento em que você tem valores, como aqueles que eu te falei (saber criar oportunidades através da sua postura, da sua filosofia e da sua maneira de ser), aí, vai...

Mas, partir do momento em que a pessoa acredita nela, ela tem todo esse mercado competitivo – e é um mercado que, pra pessoa se estabilizar, não é fácil.
Não é que não está fácil – se fosse fácil, todo mundo faria tudo igual, né? (risos). Então, tem que trabalhar. Se não trabalhar, não cai mastigado na boca, não.

E esse carisma que você tem em relação às mulheres? Toda vez que eu falo que vou te entrevistar, minhas amigas falam: “Ah! Eu quero ir com você, Cléo”...
Isso eu pergunto pra você, eu não sei. Você é mulher e deve saber muito melhor do que eu (risos)...


(Risos)... Ai, Olivier, pára... Você foi modelo por 10 anos... (nota da redação: Olivier não admite que é considerado um dos homens mais charmosos do Brasil)...

E daí? Por causa disso eu posso responder? Não sei, é uma coisa que tem a ver com vocês, mulheres...


Ele nunca fala... Fala, Olivier! Não precisa ficar vermelho...

(Risos)... Eu nunca falo porque eu não tenho nada pra falar a respeito disso. Não sei.


Como não sabe, Olivier? Você não tem espelho na sua casa?

E aí?..


Ele não fala, não adianta... (risos)...

(Risos)...


Bem, é o seguinte: existe uma comunidade sua no Orkut. Você não acessa o Orkut que eu sei – sua comunidade é super movimentada e é a respeito do seu trabalho. O que eu percebo lá é que são pessoas que trocam receitas, e tem homens também, não são só as mulheres...

E muito!


É... Por isso que eu comentei. Você atingiu um público que é misto – você é respeitado não só pelas mulheres. Você conquistou um público masculino muito importante.

E isso é muito mais difícil. Aí não entra essa coisa que você está me falando de “espelho”. Não que as mulheres sejam mais fúteis, não, de jeito nenhum. Eu acredito que as mulheres podem se “animar” por coisas que o homem não se animaria nunca. Ao contrário – o homem fica até muito distante. Pra conseguir atrair e ter uma credibilidade do público masculino é preciso oferecer uma solidez e uma consistência muito grande onde não entra esse aspecto “fútil” porque o homem não está receptivo a isso. Para um homem ser visto pela TV por um outro homem você precisa oferecer outra coisa, que é muito mais difícil porque entra aquilo o que você falou da competitividade, você falou de ter orgulho... Então, pra “quebrar essas paredes”, no meu caso, ofereci aquilo o que eu sou. Em cima disso, construí uma credibilidade, um reconhecimento que faz com que hoje, por exemplo, no meu site, são 90.000 visitas por mês – 50% são acessos de homens e 50% de mulheres. É uma porcentagem masculina muito importante. De certa forma, eu me tornei uma referência para o público masculino também. É uma situação que eu me orgulho muito.


Você é super respeitado.

E sem ser professor, sem ser uma “mala”, sem ser superior. Sou eu mesmo.


Os programas que você apresenta, viajando com o seu Fusquinha, isso agregou ao seu sucesso?

Inegavelmente. Com certeza.


É super diferente o que você faz.

É uma maneira de apresentar que as pessoas “se encontram” e encontram coisas que ninguém soube apresentar com (talvez) clareza, simplicidade, simpatia, valorização...


Fotos: divulgação e arquivo pessoal


Cléo Tassitani

Cléo Tassitani
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